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Terceiro setor busca mais executivos da iniciativa privada – Os fatores econômicos e tecnológicos que forçaram setores da iniciativa privada a se reinventar agora estão mudando o terceiro setor no Brasil. Em um movimento de profissionalização, as organizações não-governamentais (ONGs) estão adotando práticas de governança para se tornarem mais eficientes, competitivas e atraentes para o capital financeiro e humano. Aos poucos, o estigma de um setor desorganizado e amador está sendo rompido.

Um estudo conduzido pela consultoria em recrutamento Prime Talent, que ouviu mais de 50 profissionais do primeiro, segundo e terceiro setor, aponta essa transformação. Diante de um cenário em que a concorrência por recursos é grande e onde se exige uma maior transparência, a contratação de profissionais mais qualificados passou a ser uma necessidade vital para essas organizações.

Como consequência, as ONGs brasileiras estão começando a recorrer a um mercado desconhecido até bem pouco tempo, o de busca de executivos. “Se até aqui funcionou o modelo de gestão oriundo de voluntários, hoje o padrão já não comporta mais apenas isso”, diz David Braga, presidente da Prime Talent e autor da pesquisa. Em análise, as ONGs, entendendo a necessidade de serem mais assertivas e de mostrarem mais resultado, estão atrás de profissionais por competências. “Elas descobriram que a ineficiência de gestão impacta os atendidos por elas”, considera.

Esse comportamento também tem sido acompanhado de perto pela Fundação Dom Cabral (FDC), que oferece, desde 2010, um programa de melhoria de gestão para o terceiro setor, subsidiando 85% do seu valor total. Durante esse período, mais de 60% das 56 organizações participantes adotaram sistemas de governança. O professor Luiz Henriques, coordenador do programa, admite que o número ainda é pequeno, porque ele calcula que no Brasil existam mais de 240 mil ONGs. No entanto, ele observa que o interesse pelo assunto e a adoção de práticas de governança pelas ONGs vem crescendo, principalmente a partir de 2014. “De início, elas nos procuraram porque entendiam que precisavam fazer mais com menos e, ao mesmo tempo, se tornar mais competitivas na busca de recursos”, conta Henriques.

A Apae de São Paulo é uma dessas instituições. Desde 2012, a parceria com a FDC tem ajudado a entidade, que promove o diagnóstico, prevenção e inclusão da pessoa com deficiência intelectual, a institucionalizar o conceito de gestão. Com isso, ela ganhou mais agilidade nas correções de rotas de suas estratégias. “Na hora que você mostra uma organização que tem plano estratégico, metas, plano de carreira, avaliação de desempenho, você consegue trazer não somente recursos financeiros, mas gente do mercado privado”, diz Aracelia Lucia Costa, superintendente da Apae São Paulo, que tem 490 funcionários contratados e uma base de 200 voluntários.

Apesar de ainda recente, algumas empresas de recrutamento já sentem crescer a demanda de busca de executivos pelas ONGs. É o caso da Michael Page, que registrou aumento de 10% na quantidade de posições trabalhadas para o terceiro setor nos últimos dois anos. “Os números absolutos de contratações ainda são pequenos, mas acredito que em oito anos vamos chegar a uma proporção parecida com a dos Estados Unidos e Europa, em que existe uma participação muito maior das ONGs nos processos de recrutamento feitos por empresas de executive search”, afirma Ricardo Basaglia, diretor-executivo da Michael Page.

A consultoria de recrutamento Exec também tem visto essa mudança com entusiasmo. No entanto, Daniel Cunha, sócio-diretor da consultoria, atribui o crescimento de contratações nessa área, de cerca de 25% nos últimos dois anos, também ao momento de retração econômica do Brasil. “Em circunstâncias assim, as pessoas passam a questionar o propósito das empresas e começam a enxergar que o terceiro setor está mais organizado e oferece uma possibilidade de carreira”, diz. Ele acredita que o amadurecimento das entidades de impacto social também será definido pelo aumento da formação de conselhos. “O executivo que quiser fazer uma transição de carreira como conselheiro profissional deve olhar com atenção para o terceiro setor”, diz.

Não são raros os casos de ONGs que aumentaram a captação de recursos após a implementação de conselhos. Afinal, os stakeholders querem saber onde o dinheiro colocado por eles está sendo investido e quais são os resultados. “As organizações perceberam que, assim como uma empresa, não podem dar prejuízo”, diz Carlos Guilherme Nosé, CEO do Fesap Group. Desde 2012, a Fesa vem auxiliando algumas entidades na captação de executivos no mercado. “Ainda é um número baixo, mas é fato que temos tido mais conversas com ONGs nesses últimos três anos.”

Essas consultorias têm apontado três grandes áreas com potencial de contratações: marketing, recursos humanos e finanças. O administrador Eduardo França largou 15 anos de mercado financeiro por uma dessas oportunidades, durante um processo de seleção feito por headhunter. Desde agosto do ano passado, ele é o gerente financeiro do ChildFund Brasil, fundo que implementa programas e projetos sociais para crianças e adolescentes. “Eu já não via propósito onde estava. Até tinha alguns desafios pela frente, mas aqui eu consigo juntar o que gosto de fazer com o prazer de trabalhar por algo que está mudando a vida de algumas pessoas”, diz.

Ele assume que ficou surpreso ao constatar que o seu novo empregador tinha uma governança, em alguns aspectos, até mais avançada que o seu emprego anterior. “Eu vim com uma condição salarial semelhante ao mercado financeiro”, afirma. Assim como França, outros profissionais têm feito um movimento parecido. No próprio ChildFund Brasil, 17% das posições do primeiro nível foram trocadas nos últimos seis meses, em busca de uma maior senioridade entre os profissionais. A entidade, presente há 50 anos no Brasil, quer ser financeiramente independente da matriz norte-americana na próxima década. A previsão é chegar a 2020 com 34% dos R$ 35 milhões de orçamento anual captados no Brasil.

“Hoje, eu tenho tudo que uma organização privada ofereceria para o desenvolvimento de um profissional. Mas tenho uma coisa que ela não tem, uma causa. É isso o que faz a diferença”, diz Gerson Pacheco, diretor-geral do ChildFund Brasil. Ele próprio é um exemplo do que busca o mercado. Pacheco é um ex-executivo da Xerox que migrou para o ChildFund há dez anos como funcionário remunerado. “Eu não me vejo fazendo outra coisa. Quero que outras pessoas tenham a oportunidade de trazer sua experiência profissional em gestão para uma causa.”

Claudio Anjos, diretor institucional da Fundação Iochpe, pensa o mesmo. Com uma carreira construída ora na iniciativa privada, ora no terceiro setor, também foi escolhido por uma consultoria de busca de executivos, uma novidade para a fundação. Ele está há menos de dois meses no cargo e acredita que a geração mais nova de profissionais, com uma maior noção de responsabilidade e cidadania, deverá chegar ao terceiro setor nos próximos anos. Mesmo enquanto isso não acontece, a expectativa para os próximos cinco anos é animadora. Segundo David Braga, da Prime Talent, é esperado um aumento de pelo menos 30% das novas posições nas organizações sociais no Brasil.

Fonte: Valor Econômico

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