Impedir O Sucesso

Qual é o verdadeiro significado do sucesso profissional? O que define o sucesso na carreira? Por que, de acordo com as definições mais tradicionais, apenas quem está no topo da pirâmide tem uma carreira de sucesso, se a maioria absoluta das pessoas só sobrevive e muitos de nós acabam até fracassando? Esses questionamentos estão na minha cabeça e no meu coração há mais de duas décadas. Vamos começar com a primeira pergunta. Vejamos como definimos uma carreira bem-sucedida.

A compreensão típica do sucesso gira em torno de duas premissas básicas. Número um: o herói do ambiente de trabalho é quem consegue ir subindo até chegar no topo. Número dois: sendo assim, chegar no topo – conquistando uma promoção atrás da outra – é só o que importa. Essa mentalidade nos leva a continuar subindo os degraus corporativos para sempre, entrando para a seita de resistência física e mental necessárias para conseguir finalmente conquistar o status de herói corporativo.

Isso realmente faz sentido?

Questionemos a primeira premissa. Quem é o herói?

Na minha opinião, o herói é aquele homem de meia-idade que perde o trabalho e a identidade mas é forte o bastante para se recuperar e recomeçar do zero. O herói é aquela mãe solteira que não desiste, porque quer oferecer aos filhos um futuro melhor. O herói é aquela jovem que, mesmo sabendo dos altos índices de desemprego, continua insistindo até arranjar um trabalho, terminar a faculdade ou abrir a própria empresa.

O herói é aquele trabalhador do turno da noite que pega o mesmo ônibus às cinco da manhã há trinta anos. A moça da limpeza que trabalha com dignidade desde antes das oito da manhã até depois das oito da noite para encontrarmos o escritório limpo e arrumado no dia seguinte. O imigrante que veio de um país muito distante para realizar trabalhos inferiores com decência muito embora costumasse trabalhar como advogado ou professor, só para poder enviar tudo o que ganha à família. Os heróis são os homens e mulheres religiosos que ajudam as pessoas carentes, renegadas e invisíveis. Os heróis são os médicos, professores, juízes, enfermeiros e policiais que ajudam os membros da comunidade. O executivo que não aceita corrupção, trapaça, cartas marcadas e artimanhas indecentes à custa de quem merece mais oportunidades. Os heróis são os jornalistas ou artistas que usam a própria arte ou trabalho para contar histórias, expor casos de corrupção, promover o bem geral, aliviar o sofrimento e dar coragem a todos nós. O herói é a pessoa que trabalha para proteger o nosso meio ambiente.

Chegou a hora de mudar os nossos conceitos ultrapassados de heroísmo corporativo. Ninguém vira um herói por meio de um processo mágico reservado a poucas pessoas, isso é algo possível para todos nós se tentarmos aproveitar ao máximo as nossas circunstâncias.

Agora, analisemos a segunda premissa – de que subir a hierarquia corporativa é só o que importa. Precisamos trocar a pergunta “O que posso fazer para chegar no topo” por “O que importa de verdade?”.

Como podemos medir o sucesso pessoal e profissional, e quem determina isso?

No meu primeiro dia de trabalho em um banco de investimentos de Nova York, lá no início da década de 90, conheci uma pessoa que não me disse o próprio nome, apenas o cargo que ocupava: “Sou o diretor administrativo“. De acordo com ele, o meu objetivo deveria conseguir ser promovido pelo menos para vice-presidente em até três anos, já que apenas uma trajetória rápida caracteriza uma carreira de sucesso.

Foi apenas anos depois que percebi que cometi dois erros naquele dia. Em primeiro lugar, eu acreditei no diretor administrativo; em segundo, eu sequer questionei se havia outras formas de definir uma carreira.

Está na hora de passar dessa ideia do sucesso como algo definido por uma organização para adotar um conceito de importância a partir do nosso ponto de vista. Continuar em uma busca incansável pelo próximo degrau corporativo não dá certo pelos seguintes motivos:

1. Se valorizamos apenas quem chega no topo da hierarquia, estamos automaticamente desprezando os outros 99% das pessoas. Isso cria uma linha de montagem cruel que produz um monte de gente frustrada e infeliz crente – em geral, de forma errônea – que apenas quem chega no topo é um vencedor.

2. Ao vermos a nossa carreira como uma corrida, entramos em um estado constante de inquietação: somos “nós” contra todo mundo. Pense, por exemplo, nos sistemas de incentivos: já vi diversos e – mea culpa – projetei alguns sistemas que se concentram nos resultados do desempenho individual, mas nunca são fundamentados no compartilhamento, na cooperação ou no propósito. Eu acredito que o estresse não está relacionado apenas à quantidade de trabalho que fazemos, mas também à baixa qualidade dos relacionamentos que desenvolvemos com os nossos colegas. Um clima corporativo de “cada um por si” prejudica os nossos relacionamentos, porque eles viram apenas interações operacionais ou utilitárias, perdendo qualquer vestígio de conexão entre as pessoas. Essa obsessão com a aparência acima do conteúdo acaba com a humanidade da gente.

3. No fim das contas, todos nós acabamos participando de uma corrida de ratos. Ficamos tão egocêntricos e ocupados tentando ganhar essa competição que esquecemos que continuaremos sendo roedores mesmo se ganharmos. E ratos vulneráveis: a crise econômica crônica, a reestruturação corporativa ou eventos muito simples que estão além do nosso controle podem fazer todos nós acabarmos desempregados. Se a única forma de definir a sua identidade for pelo sucesso corporativo, essa identidade será destruída com todas as consequências emocionais e sociais decorrentes do processo.

Sendo assim, como podemos redefinir o que significa ter sucesso no trabalho?

Em minha atuação profissional, já observei e acompanhei centenas de pessoas ao longo de suas carreiras. Quero compartilhar com vocês não só o que significa ter uma carreira de sucesso, mas também como podemos monitorar e medir o nosso progresso de acordo com os nossos próprios critérios, não com base na definição dos outros.

Em uma série de dez artigos, mostrarei a vocês ferramentas práticas usadas para redefinir o trabalho com base nos meus 25 anos de experiência. Tenho certeza de que esquecemos o que realmente importa com uma frequência muito grande: não é o destino de algum tipo de apogeu profissional distante que interessa, mas a jornada da nossa vida no trabalho e o significado que atribuímos a ela.

Fonte: Content Loop

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