Dados – Crescimento Do PIB
Com a promessa de fidelidade a uma agenda liberal e ao ajuste fiscal, Jair Bolsonaro estreou a faixa de presidente com o voto de confiança do mercado e perspectivas de que em seu primeiro ano de governo a economia ganharia o impulso frustrado em 2018. Em janeiro, estimativas apontavam que, após a marcha lenta dos últimos anos, em 2019 a atividade econômica poderia voar mais próxima dos 3%, com lances otimistas de até 4%. Porém, tal como o mitológico Ícaro, quanto mais altas as apostas chegaram, mais frágeis ficaram aos efeitos do sol de verão sobre suas asas de cera. A soma da decantação de expectativas superdimensionadas, volatilidade internacional, choques adversos do lado da oferta e incertezas no front político mudou esse cenário. Na planilha dos analistas, o Brasil do governo que completou os primeiros 100 dias de mandato voltou a evidenciar os desafios de uma economia em morosa recuperação, que sua para garantir décimos adicionais ao PIB.
Esse choque de realidade na virada do trimestre leva a duas constatações. A primeira, de que o país dificilmente reverterá o sinal de mais um ano de atividade fraca, já que mesmo a mediana das expectativas de mercado para o PIB, de 1,98% no último relatório de março divulgado pelo Banco Central, ainda embute um viés de baixa, dependente do desempenho do governo na dura negociação da reforma da Previdência no Congresso.  Ampliando a perspectiva para uma visão panorâmica da atividade brasileira, chega-se à segunda constatação amarga: a de que a manutenção dessa marcha lenta, que mantém o país com níveis de atividade abaixo dos registrados em 2014, antes da recessão, nos leva a arrancar dos anos 1980 o indesejado título de década perdida em termos de crescimento. Nota informativa publicada pela Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia este ano mostra que, enquanto naquela época – marcada por uma dívida externa crescente, expansão da dívida pública e inflação alta –, a variação real média do PIB foi de 1,6% ao ano, agora, com inflação na meta e as contas externas equilibradas, mas uma trajetória da dívida pública explosiva, a média de crescimento entre 2011-18 foi muito menor, de 0,5% ao ano, com uma evolução do PIB per capita médio empatada à daquele período, de 0,3% ao ano. Considerando a mediana das expectativas de mercado observada pelo Banco Central no final de março para 2019 e 2020 – respectivamente, 1,98% e 2,75% – Marcel Balassiano, pesquisador da Economia Aplicada do FGV IBRE, aponta que o crescimento médio desta década deverá ser de 0,9% ao ano. E que, se quiséssemos anular tal “vantagem” para manter esse incômodo título no passado, teríamos que bombar o PIB em 5,7% ao ano, em 2019 e 2020, em termos reais. Missão, se não impossível, bastante improvável.
IMPACTOS DO PRIMEIRO TRIMESTRE
Para o economista da UFRJ Ricardo de Menezes Barboza – que já em janeiro previa um PIB de 1,5% para 2019, posicionando-se no espectro pessimista das análises de mercado –, parte das revisões observadas neste início de ano referem-se ao excesso de confiança provocado pela mudança de governo. “Observadas trimestre a trimestre, as variáveis macro tendem a ser muito inerciais. Na ausência de medidas excepcionais de estímulo, é difícil acreditar numa grande variação”, avalia. “Se levarmos em conta que nos últimos oito trimestres o crescimento médio da economia foi de 0,4% – e num contexto em que houve supersafra agrícola, afrouxamento de política monetária, saque das contas inativas do FGTS para estimular consumo –, é difícil identificar um fator que pudesse provocar uma aceleração significativa da atividade este ano”, diz.
De fato, a taxa média mencionada por Menezes guarda uma diferença marcante entre o percentual observado no primeiro tri de 2017, quando o resultado agrícola colaborou para um crescimento do PIB de 1,5%, e o último de 2018, quando essa variação foi de 0,1% em relação ao trimestre anterior. Com tal resultado, o PIB de 2018 acabou repetindo o resultado de 2017, fechando em 1,1%, e pressionou a uma revisão dos cálculos para 2019, lembra Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro IBRE. “Nesse período, houve uma piora das condições internacionais, que por um lado resultou numa melhora das condições financeiras internas, mas por outro denotou uma perspectiva de desaceleração mais acentuada da economia mundial, o que pode fortalecer o dólar e o mau humor do mundo com os emergentes, e impactar o comércio internacional, em volume e preço”, diz, destacando que, no nível doméstico, a melhora inicial das expectativas ainda não havia se transferido à economia real para compensar o efeito externo. Ao contrário, constatou-se a piora da situação da indústria de transformação afetada especialmente pelo impacto da crise argentina, sem contrapartida à altura da demanda interna, marcando um descasamento entre o desempenho desta e os setores de comércio e serviços.
Braulio Borges, pesquisador da FGV IBRE e economista sênior da LCA, lembra que o começo do ano também foi afetado negativamente pelos choques do lado da indústria extrativa e da agricultura. “Começamos 2019 com uma perspectiva para a safra de grãos de aumento de 3% a 4%, que hoje está mais próxima de zero. Isso pode tirar 0,1 ponto percentual do PIB”, diz. “O rompimento da barragem de Brumadinho, por sua vez, deverá resultar em uma redução da produção da Vale de dois dígitos. Sendo ela a principal produtora e exportadora de minério de ferro, isso deverá restar do PIB brasileiro ao menos outro décimo da atividade”, afirma, ponderando, entretanto, que o impacto final ainda dependerá da capacidade da companhia de compensar essa queda de produção com a atividade de outras minas, além de todos os trâmites judiciais que ainda poderão pesar em sua operação e contabilidade. Em fevereiro, o PIB da indústria extrativa recuou 14,8% em relação a janeiro, possivelmente reflexo do grave acidente. “Também tivemos recuo da produção de petróleo, de 5,4% na mesma comparação, colaborando para essa piora”, lembra Silvia. Tais resultados influenciaram para um avanço da produção industrial aquém do esperado para o mês, de 0,7%, ainda que com o segmento de bens de capital avançando 4,6%. “Uma projeção preliminar para a produção industrial de março, entretanto, indica ligeira queda, de 0,1% na margem”, ressalta Luka Barbosa, economista do Itaú.
Barbosa alterta para a possibilidade de um crescimento próximo de zero no primeiro trimestre contra o trimestre anterior. “Para a estimativa de crescimento de 2%, contávamos com um avanço de 0,5% nesse período, com ajuste sazonal. Agora será preciso acelerar mais nos próximos”, diz. Os índices de confiança, entretanto, indicam que essa tarefa ficou mais complicada. O Índice de Confiança Empresarial do FGV IBRE de março caiu 2,7 pontos no mês, menor nível registrado desde outubro de 2018, refletindo a decepção de empresários da indústria, comércio, serviços e construção com a lentidão da economia e a manutenção do ambiente de incerteza. Setor-chave para o investimento e o emprego – e o mais atrasado na recuperação da atividade para os níveis pré-recessão –,a construção registrou uma queda de confiança na margem desde junho do ano passado, com destaque para o segmento de edificações residenciais, sensível aos anúncios de contingenciamento de recursos para o programa Minha Casa Minha Vida. “Certamente temos uma luz amarela acesa. Mas, como é um setor de ciclo longo, esse resultado não deve repercutir imediatamente nos indicadores de atividade”, diz Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do FGV IBRE.
Do lado da demanda, a tendência se repete. Em março, o Índide de Confiança do Consumidor também recuou para o menor valor desde outubro, perdendo quase metade dos ganhos registrados entre setembro de 2018 e janeiro. Com a taxa da população desocupada medida pela Pnad Contínua 7,3% maior no trimestre de dezembro a fevereiro em relação ao anterior, somando 13,1 milhões de pessoas, o estímulo ao consumo se mostra cada vez menor. “Pela Lei de Okun (que propõe uma relação inversa entre crescimento econômico e do desemprego), um crescimento de 2% no Brasil apenas mantém nossa taxa de desemprego como está. Não é surpresa que, na margem, esse número tenda a aumentar”, diz Barboza, da UFRJ. “Nossa situação é dramática. Se pensarmos que os trabalhadores subutilizados hoje representam um quarto da força de trabalho potencial do país, estamos falando de um grau de insegurança altíssimo. Não há estímulo para consumir.”
O cenário ainda é de incerteza e, na opinião dos pesquisadores e economistas ouvidos para esta matéria, o importante é evitar tumulto e estimular o empenho do governo e de parlamentares para a aprovação da reforma, na melhor condição possível. E, dessa forma, redirecionar as expectativas para o campo positivo, evitando que em 2019 a economia não saia do nível morno para o traumático. Em sua Carta da Conjuntura, o Ipea reforça a análise de que, sem conter o desequilíbrio estrutural das contas públicas, o país ficaria exposto a uma nova piora das expectativas “e, até mesmo, a uma nova recessão”, diz o texto. “Com a economia andando de lado e a incerteza alta, a insatisfação popular aumentará e contribuirá para consumir mais rapidamente o capital político do governo”, alerta Barboza, da UFRJ. Silvia, por sua vez, olha o lado cheio do copo. Para ela, se algo de positivo pode ser tirado dessa tensão quanto ao ritmo das reformas é que uma lentidão no processo não comprometerá apenas a avaliação do governo, mas jogará parte da responsabilidade contra o próprio Congresso. “Ninguém vai querer ficar com a culpa dos efeitos disso no PIB, e alguma reação terá que acontecer”, diz, lembrando que as principais medidas de ajuste conquistadas nos últimos anos aconteceram, em parte, impulsionadas pelo impacto da recessão econômica. O importante, reforçam os analistas, é o foco na construção de consensos. “A literatura da incerteza mostra que experimentalismo político é muito ruim. Ninguém consome, ninguém investe, e a roda da economia não gira”, diz Barboza. E economia que não cresce fica mais vulnerável – e disso o Brasil não precisa.
Leia a íntegra desta matéria na Conjuntura Econômica de abril.

Fonte: Portal IBRE

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