Crescimento

Por que o Brasil cresceu muito menos do que o esperado em 2018

Dados do PIB decepcionaram; “2018 foi um ano atípico com uma coleção inédita de choques dentro e fora do país”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB

 

Em janeiro de 2018, a previsão dos economistas, compilada no Boletim Focus do Banco Central, era que o Brasil fecharia o ano com um crescimento de 2,7%.

Seria uma aceleração importante em relação aos 1,1% registrados em 2017, quando a rota mudou mas sem força para compensar a queda acumulada de 8% na depressão de 2015 e 2016.

Nesta quinta-feira (28), o IBGE divulgou os dados de crescimento do ano: 1,1%, a exata mesma taxa do ano anterior. O PIB per capita do brasileiro segue praticamente estagnado mesmo após a retomada.

O resultado mais fraco foi sendo antecipado ao longo do ano diante de uma série de decepções.

“2018 foi um ano atípico com uma coleção inédita de choques por todos os lados, dentro e fora do país”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Veja quais foram alguns dos fatores que atrapalharam:

Cenário internacional

O ano começou com dados melhores do que o esperado de emprego e salários nos Estados Unidos, gerando a expectativa de alta da inflação no país e portanto, mais altas dos juros ao longo do ano.

Com juros mais altos nos EUA, fica mais vantajoso para o investidor enviar o seu dinheiro para lá, o que aperta as condições financeiras e as moedas nos emergentes.

A situação foi especialmente ruim na Argentina, que em crise cambial recorreu ao FMI e fez um forte ajuste. O país é o terceiro maior comprador de produtos brasileiros e a sua crise afetou setores que vinham bem, como o automobilístico.

“A recessão na Argentina foi muito forte no final do ano e pegou em cheio a indústria de transformação, que foi negativa no último trimestre”, diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do IBRE/FGV.

Além disso, a China segue em desaceleração e a Europa sofre com incertezas na Alemanha, Itália e com o Brexit. Nos EUA, o mercado balançou e fez o Fed interromper a escalada dos juros por enquanto.

O fantasma da guerra comercial de Trump também acompanhou a economia mundial ao longo do ano e apesar dos últimos sinais auspiciosos de um acordo EUA-China, também está longe de ser resolvida.

Greve dos caminhoneiros

No Brasil, o principal choque veio em maio com a greve dos caminhoneiros, que travou grandes cidades no país por 10 dias e gerou desabastecimento e interrupção de produção e exportações.

A solução para o impasse via tabelamento do frete gerou custo fiscal para o governo e a queda do presidente da Petrobras, além de mais instabilidade política. O segundo trimestre teve crescimento nulo.

Nem todos os efeitos eram recuperáveis e há estimativas de perdas na casa dos R$ 50 bilhões. Sérgio Vale calcula que a greve tirou sozinha 1,2 ponto percentual do crescimento do ano.

“O consumo das famílias teve um choque e desde então a recuperação veio muito instável”, diz Silvia.

Fonte: Revista Exame

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