Por que está faltando água? – artigo aluno Pós-ADM IBE Conveniada FGV

Por que está faltando água?
Vieira Junior
Límpida, incolor. A junção entre dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Indispensável à vida. Segundo cientistas e pesquisadores, tudo começou através dela. Segundo a religião, também. A própria bíblia diz, nos primeiros capítulos do livro de Gênesis, que, no início, “o espírito de Deus movia-se sobre as águas” (Gên.1:2). Salgada, doce, salubre. Simplesmente água. Mas por que ela já está faltando nas torneiras de milhares de pessoas e aterroriza outros tantos com um possível colapso no abastecimento? Respondo sem medo de errar: pura falta de planejamento e incompetência de quem administra o recurso em um país considerado o “berço das águas”.
A escassez hídrica é uma realidade mundial, com ressalva para alguns países, como o Brasil, que conta com a maior reserva de água doce do mundo. Contudo, isso não significa que podemos deitar eternamente em berço esplêndido. O Estado de São Paulo, sobretudo as bacias PCJ (Piracicaba, Capivari e Jundiaí), por exemplo, tem sofrido essa realidade. A região é uma das áreas em que os conflitos pela água mais aumentam. Para se ter uma ideia, segundo a ONU, é considerada crítica uma bacia com disponibilidade inferior a 1500 m³/ habitante/ano. Nas bacias PCJ, o índice, em períodos de estiagem, gira em torno de 408 m³/habitante /ano, um número que pode ser comparado a alguns países do Oriente Médio.
Contudo, vale ressaltar que esse cenário não é novo. Podemos dizer que esta é a situação cotidiana da região. Assim, uma pergunta fica lançada para os governantes: se a situação é sempre crítica, por que esperar que o sistema entre em colapso para agir?
O governo paulista gastou milhões em obras para tapar um buraco que ele mesmo criou ao longo de 20 anos à frente da máquina pública. As ações para tirar água do chamado “Volume Morto”, do Sistema Cantareira, foram emblemáticas e representam um ato de puro amadorismo administrativo e desespero político. Há tempos que entidades sem fins lucrativos e que trabalham sério pela recuperação dos rios e melhor administração dos recursos hídricos tem alertado os administradores sobre a insuficiência do Cantareira. E o que fez o governo? Deixou a população à mercê de um sistema construído na década de 1970 e que até hoje não recebeu grandes investimentos para a ampliação de sua capacidade. E ainda temos que aguentar Paulo Maluf batendo no peito na televisão ao dizer que foi o último a fazer obras no sistema. E o pior de tudo é que ele está certo!
Ao longo desses anos, o governo de São Paulo empurrou com a barriga o problema da água. O Rio Tietê, por exemplo, é até hoje um esgoto a céu aberto, sendo que a quantidade de dinheiro gasto para a despoluição supera os US$ 3,6 bi em 22 anos. O Rio Sena, em Paris, foi despoluído em menos tempo e com menos dinheiro.
Os problemas com o gerenciamento dos recursos hídricos no Brasil se empilham. Cobro muito mais do Estado de São Paulo pelo potencial econômico que possui, conhecido e denominado por muitos como “o coração do Brasil”, mas que ainda conta com índices de coleta e tratamento de esgoto baixíssimos, rios de classes inclassificáveis pela alta poluição e cidades que, quando alcançam índices de perdas hídricas de 20%, comemoram e se denominam exemplo. Exemplo de quê? Diga para um empresário que sua empresa perde 20% de sua produção todo mês e veja o que acontece no fim do mês.
Chega a ser vergonhoso que, no berço das águas e em um mundo tomado pela tecnologia, ciência e razão, os governantes continuem olhando para os céus e pedindo misericórdia. Se for para buscar conforto em partes religiosas, sinto, mas a resposta também não será positiva. “Lance o seu pão sobre as águas e depois de muitos dias o achará”. Um conselho antigo, escrito por Salomão, que, traduzido para uma linguagem mais moderna, permanece atual: se você não planejar, nunca terá o que precisa. Eis aqui mais um ponto em que ciência e religião se combinam.
Vieira Junior, jornalista, pós-graduando em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (IBE Conveniada FGV)

Fonte: http://www.panoramadenegocios.com.br/2014/08/coluna-do-jornalista-vieira-junior_14.html

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