Pensamento Sistêmico

Pensamento sistêmico: o que é, para que serve e como funciona?

Podemos dizer, genericamente, que um sistema é um conjunto de partes que interagem entre si. A mais comum das analogias são os sistemas que compõem o corpo humano. Se pararmos para analisar mais detidamente poderemos verificar que quando um dos órgãos de um sistema não funciona bem, afeta diretamente todos os outros. Aqui aparece pela primeira vez a palavra mágica no estudo dos sistemas: influência. A raiz do pensamento sistêmico está na ideia de que cada parte do sistema influencia o todo, o coração que funciona mal não prejudica, apenas, o sistema circulatório, mas todos os demais órgãos.

Dizer que algo é um sistema significa afirmar que esse algo é constituído por um conjunto de partes que se influenciam mutuamente. As partes podem ser pessoas, como um time de futebol, conceitos e ideias, os valores de uma empresa e até processos, como a fabricação da cachaça.

No famoso livro “A Quinta Disciplina”, Peter Senge define que “Um sistema é um todo percebido cujos elementos mantêm-se juntos porque afetam continuamente uns aos outros, ao longo do tempo, e atuam para um propósito comum”. Em um sistema, todas as partes atuam em conjunto e harmonia com seu ambiente, que é um sistema maior, para que o todo funcione adequadamente. Tentar compreender somente uma parte de um sistema pode não funcionar, pois há dependências daquela parte com as demais.

As relações de causa e efeito. Para que servem?

Frequentemente tomamos decisões baseadas na nossa experiência. Desde o popular “macaco velho não põe a mão em cumbuca” até o já desgastado “aprendi tudo que sei na escola da vida” verificamos que o ser humano tem enorme tendência a utilizar padrões observados anteriormente para decidir sobre o futuro.

Alguns desses padrões são úteis e valiosos, permitindo que poupemos tempo, desgaste e sofrimento. Todos nós sabemos que não se deve colocar a mão dentro da água fervente. É prudente evitar certas coisas porque provocam reações ou respostas desagradáveis. Até aí, tudo bem. O problema surge quando alguns desses padrões se transformam em hábitos arraigados e verdadeiramente imutáveis.

As causas e os efeitos no mundo podem aparecer de várias maneiras. A mais conhecida e usada por nós é a causa e efeito simples: pôr a mão no fogo/queimar, abrir a torneira/sair água, tomar choque se puser o dedo na tomada. Quando se lida com um sistema, no caso dos organizacionais, isso é bastante evidente e dificilmente se tem a regularidade uma causa, um efeito, pois cada parte está recebendo influências de várias outras. Ou seja, cada parte é um sistema aberto a influência de outros sistemas.

Diversos autores listam várias possibilidades de sistemas complexos de causa e efeito:

Múltiplas causas/um efeito – Por exemplo, a velocidade do trânsito diminui porque todos querem dar uma olhada em um acidente do outro lado da pista.

Uma causa/múltiplos efeitos – Uma epidemia de gripe pode desencadear diversos efeitos diferentes, embora o vírus seja único.

Múltiplas causas/múltiplos efeitos – Esta estrutura é comum nos sistemas. O que você está fazendo agora decorre de uma série de eventos passados: abriu conta em um banco, registrou sua senha de acesso à internet, visitou o site do banco e descobriu que podia fazer uma operação financeira que lhe permitiria adiantar a compra do carro novo, foi a concessionária, escolheu o carro, comprou o carro, voltou ao banco e fez o seguro e por aí vai.

Pensamento sistêmico X pensamento linear. Como funciona?

Vivemos em um mundo que é uma combinação de linear, causas e efeitos diretos e sistêmico, causas gerando efeitos indiretos ou mesmo imprevisíveis. No modelo mental adotado pela maior parte dos ocidentais estamos familiarizados com acontecimentos e padrões lineares.

Quando você pensa no tempo – sejam dias, semanas, estações ou anos – normalmente aplica uma estrutura de pensamento linear, ou seja, em sequência, um evento após o outro. Já quando escreve, precisa estar atento às relações entre as palavras, aí você pensa sistemicamente.

Efeitos do pensamento linear

Vamos verificar como alguns autores listam possíveis efeitos do uso inadequado do pensamento linear no dia-a-dia das pessoas. Se você se identificar com alguma das situações descritas, a seguir, já sabe que tem uma possibilidade de aperfeiçoamento.

Foco – Uma pessoa pensando linearmente trabalha focada em uma parte, em uma perspectiva. Ela enxerga a árvore, mas não vê a floresta. A tendência nesse caso é só notar um aspecto ou uma única perspectiva de um assunto: só vantagens ou só desvantagens. Um dos efeitos disto é a motivação só pela necessidade ou só pelo prazer.

Quando uma pessoa tem um padrão ou hábito de focar o que está faltando, pode ficar “eternamente” insatisfeita. Por exemplo, alguém que só acha saboroso um determinado tipo de cozinha, ao se aventurar a experimentar outro prato só encontra defeitos. Como o padrão de pensamento é o fator essencial da avaliação, ele continuará a fazer o que sabe, ou seja, se manterá fiel a cozinha pelo medo de que ocorra uma nova insatisfação.

Desequilíbrios – Uma pessoa pensando linearmente tende a extremos, seja “pensar em si mesmo” ou “se dedicar a outras pessoas”. É egoísta ou santa, ela pode não conseguir encontrar alternativas de ação que integrem, por exemplo, seus interesses, os da outra pessoa e possivelmente outros, como valores ambientais.

Uma pessoa é fisiculturista e só pensa na beleza externa. Outra valoriza excessivamente a mente e só quer saber de aprender. Ambos jamais praticarão a ideia da “mente sã em corpo são”.

Pensar por julgamentos – Função da dificuldade em tratar múltiplas variáveis, a pessoa ao pensar linearmente tende a fazer resumos ou sínteses na forma de impressões, que podem virar julgamentos. “Não confio em advogados” ou “todos os políticos são corruptos representam generalizações que ilustram essa situação.

Há ainda outros exemplos tais como: redução da intensidade do prazer ou intensificação da dor; expectativas distorcidas; busca por solução única para um problema; interpretações pobres; causas e efeitos distorcidos ou incompletos; conflitos; e decisões de baixa qualidade. Trataremos de cada um deles em um futuro artigo.

Benefícios do pensamento sistêmico

O Pensamento Sistêmico permite que haja a consideração de múltiplos focos, aspectos, variáveis, partes e relações; usufruto de múltiplas fontes de prazer, com a intensificação resultante da multiplicidade que na dor permite maior equilíbrio perceptivo; busca por várias soluções combinadas para resolver um problema, inclusive empilhando-se planejamentos, isto é, atingir vários objetivos simultaneamente, como também aprender algo com a situação, em um horizonte de tempo mais realista; geração de várias interpretações, sem necessariamente fazer os “resumos” ou impressões; procura de possibilidades não necessariamente integradas; e busca de alternativas antes da escolha.

Pensando sistemicamente conseguimos perceber que somos parte de vários todos, de vários sistemas inter-relacionados. Isto permite melhorar nosso desempenho como líderes, tomar decisões mais consistentes e conscientes, gerenciar com maior efetividade e muitas outras vantagens buscadas por todos aqueles que são responsáveis pelo destino de suas organizações.

João Baptista Vilhena é professor e especialista da IBE Conveniada FGV. É coordenador acadêmico do MBA em Gestão Comercial da FGV, consultor nas áreas de vendas, liderança e marketing.

Fonte: Contadores.CNT.BR

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