“Inovação” é trazer novas ideias, soluções e formas de pensar para um problema. Já a palavra “social” ganhou força nos anos 1990, como grande modificadora do mundo que temos hoje. Para a diretora do Centro de Inovação Social da Universidade de Stanford, os dois conceitos devem estar ligados para provocar mudanças sociais reais. Nesta entrevista, que aconteceu um dia antes de sua palestra no Seminário Social Good Brasil, ela defende o envolvimento do setor empresarial, da sociedade civil e dos governos locais e federal para o sucesso de projetos de inovação social

 

Recém-saída de Mianmar, onde ficou sete meses trabalhando para equipar organizações com metodologias de design thinking e outras ferramentas, Kriss Deiglmeier chegou ao Brasil nesta segunda-feira para participar do Seminário Social Good Brasil*, realizado hoje (24/09), em São Paulo, e transmitido ao vivo pelo Planeta Sustentável.

Em entrevista exclusiva, a diretora do Centro de Inovação Social (CSI), da Universidade de Stanford, dos EUA, falou sobre o conceito de inovação social, que busca trazer novas ideias e soluções para os problemas do mundo, e da importância do envolvimento de todos os setores da sociedade no tema, como os governos locais e federal, as empresas, a sociedade civil e as ONGs.

O que você entende por inovação social?
A definição que costumamos dar no CSI é que inovação social é uma nova maneira de solucionar um problema social. De forma mais eficiente, efetiva, sustentável e que gere valor para a sociedade, não apenas para alguns indivíduos.

Nesse caso, o que você quer dizer com uma “solução sustentável”?
As pessoas usam o termo “sustentável” de forma genérica. Quando o empregamos na inovação social, queremos dizer que não extraímos mais recursos do planeta do que podemos devolver.

Por que você acredita que o empreendedorismo social – conceito mais difundido – não dá conta de criar mudança social?
Pense no termo “empreendedorismo”. Ele foca, normalmente, em um indivíduo. Então, observe o campo do empreendedorismo social, que precedeu a inovação social. Nos anos 1990, todos pensavam em figuras icônicas como Muhammad Yunus, e muitos centros acadêmicos e não acadêmicos queriam reproduzir mais exemplos de sucesso com ele. Por exemplo, tem um centro de empreendedorismo social fabuloso em Stanford. Ele observa as características do empreendedor – ousadia e responsabilidade – e isso é importante. Mas como o definimos? Empreendedorismo social está focado no indivíduo. Empreendimento social é outro termo, focado em uma organização e nos temas que a cercam, tais como fazer a empresa crescer e como ter times eficazes.

Porém, a ideia, de fato, é a inovação social. Então, dentro do contexto do microcrédito, Muhammad Yunus é o empreendedor; o Grameen Bank, fundado por ele, é o empreendimento social, e agora temos o termo capital social – que é o financiamento para projetos sociais. Mas a inovação social é a ideia por trás do sucesso do microcrédito.

Por que precisamos dessas definições diferentes? Porque se você quer entender mais a questão social, verá que o problema é do sistema, que não leva em consideração diferentes setores. A razão para as microfinanças fazerem sucesso é porque funciona pela integraçao entre negócios, governo e ONGs.

Quando você estuda inovação social, normalmente, está olhando para um contexto muito mais amplo. É a ideia, não o indivíduo, não a organização. É o comércio justo, a capacitação de pessoas, as microfinanças… E todos esses exemplos têm diferentes entidades envolvidas em fazer crescer a inovação social.

O Centro de Inovação Social da Universidade de Stanford está associado à Escola de Negócios da universidade. Isso significa que o tema tem espaço no setor privado, além das organizações sociais?
Absolutamente. Se você pensar na inovação social, o setor privado varia o papel que interpreta dependendo da inovação, mas todos os setores têm um papel a cumprir.

Por que é importante o engajamento do setor empresarial?
Os negócios são grandes influenciadores na sociedade. Leve em conta o papel que o capitalismo tem em caminhos positivos, como a geração de empregos, a oferta de produtos e serviços. Quanto mais ele consegue engajar, torna mais eficiente o processo sustentável. Assim, todos ficaremos melhores.

Então, não acredito que a inovação social sem o envolvimento do setor empresarial pode chegar a grandes dimensões. Além disso, varia também de acordo com a inovação social. Portanto, o papel que os negócios desempenham no microcrédito é diferente do que assume no comércio justo.

O papel-chave que os negócios desempenharam, que permitiu que as microfinanças fossem levadas a grandes dimensões, foi o capital. Tinha muito capital sem fins lucrativos, mas o que era preciso para levar o microcrédito à larga escala era o capital com fins lucrativos. Isso é inovação social.

Pense em comércio justo. Antes, costumava englobar apenas artistas e seus produtos, bazares de igrejas e pequenas lojas. Esses exemplos são muito importantes, mas a partir do momento em que o Walmart passa a comprar café de comércio justo, temos um mercado muito maior. Além disso, é uma forma de garantir que mais fazendeiros recebam um preço justo por seu café, e que as pequenas lojas tenham mais eficiência do que se o Walmart não tivesse adotado a compra pelo comércio justo.

Como o CSI alia a teoria da inovação social à prática?
É difícil. Os melhores programas fazem as duas coisas. Uma das coisas que me agrada no Centro de Inovação Social, é que fazemos pesquisa nesses temas, publicamos artigos e tentamos fazer a teoria avançar. Ao mesmo tempo, também lançamos programas de campo. Por exemplo, coordeno um programa executivo para empreendedores sociais e mando estudantes por todo o mundo em viagens pela inovação social. Então, tenho a noção da realidade “pé-no-chão”, de entregar inovação social em tempo real, para pessoas reais.

Ficar constantemente entre a teoria e a prática nos faz mais espertos. A teoria pode agregar valor, ser interessante e ter alguma aplicação. Muitas pessoas se apegam a coisas interessantes, mas inúteis. Em nossos programas, porém, tentamos nos ater às coisas que tenham usos práticos.

Como as redes sociais podem contribuir com a inovação social?
A tecnologia, de forma mais ampla, traz grandes oportunidades. Não sou expert em mídias sociais, mas penso algumas coisas a respeito, especialmente no quesito da inovação social, que é o que entendo melhor. As redes sociais têm uma maneira bastante robusta de conectar as pessoas rapidamente ao conhecimento e a relacionamentos. Se os empreendimentos e empreendedores sociais aprenderem a fazer isso para o bem social, será possível fundir esses dois grandes ecossistemas.

Eu morei em Mianmar, que não é um país muito conectado. É o segundo lugar com menor penetração de aparelhos celulares. Fiquei lá por sete meses, e interessante para mim era ver a adoção rápida do Facebook. Foi a primeira rede social da população. Naquele país, a informação é censurada e é muito difícil chegar aos fatos e à verdade. Agora, as pessoas têm uma rede social onde postar suas fotos e experiências reais. Isso pode inspirá-los a criar um governo e uma sociedade melhores. Mas está nas mãos das pessoas decidir como irão usar as novas mídias.

Então, penso que enquanto pudermos usar as mídias digitais para encorajar as pessoas a comprar produtos mais “verdes”, a contribuir com suas comunidades, será melhor para todos.

Quais são os primeiros passos para indivíduos, organizações e universidades que querem começar seu próprio centro de inovação social?
O mais importante é relacioná-lo ao contexto local. O CSI do Vale do Silício com certeza seria diferente de um centro de inovação social em São Paulo. Existem duas coisas a fazer. Primeiro, aprender com os outros. Observar o que estão fazendo e pedir dicas – eu estou sempre disposta a compartilhar o que o CSI aprendeu. Em segundo lugar, adaptar esse conhecimento ao contexto do local a ser trabalhado.

Por exemplo, o governo da Inglaterra – até onde vi – é mais aberto à inovação social do que o dos Estados Unidos. Cada país, cada município tem um ambiente singular que deve ser trabalhado de forma diferente.

Outra dica: comece com aquelas pessoas que aderiram a sua ideia desde o começo. Não comece com alguém que você não conhece bem – isso precisa ser construído ao longo do tempo.

Você sabe o que está sendo feito no Brasil? Conhece nossos empreendedores sociais?
Esta é minha primeira visita ao Brasil – uma das razões para eu estar animada para vir. Adoro viajar para outros países. Além disso, o Brasil é bastante conhecido por várias ações em inovação, especialmente em sustentabilidade. Mas me considero apenas familiarizada de forma geral com os empreendedores sociais brasileiros, não tanto quanto em outros países onde já desenvolvi ações.

Quais são suas expectativas para o encontro no Social Good Brasil?
Estou animada. Tenho esperança de que, por meio da minha apresentação e do encontro com novas pessoas, possa compartilhar o que sei sobre inovação social em escala global. Dessa forma, os indivíduos e a plateia podem levar com eles algo que será valioso.

E sabe como eu moldo o que sei sobre inovação social? Eu tenho os ingredientes para fazer uma refeição. Sei quais são as melhores práticas, estudei as inovações sociais… Mas cada indivíduo tem que pegar esses ingredientes e remanejá-los de acordo com o contexto local.

 

Fonte: Planeta Sustentável

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