Concessão De Microcrédito Desacelera Em 2020, Mas Foi Maior Que Outras Linhas De Empréstimo

Em 2020, muitos micro e pequenos empreendedores passaram por maus bocados. Mas ao mesmo tempo em que a pandemia de coronavírus trouxe a necessidade de crédito para essas pessoas, o cenário de incerteza trazido por ela deixou os bancos mais cautelosos na hora de ofertarem empréstimos. O resultado foi uma desaceleração no número de concessões de microcrédito (empréstimos de baixos valores que normalmente atendem a esses pequenos empresários). Mas, comparado a outras modalidades de crédito, o resultado foi melhor.

O saldo da carteira de microcrédito subiu 16,5% ante 2019 segundo dados do Banco Central (BC). O número de concessões dessa modalidade avançou 12,7%. Em 2019, no entanto, o saldo havia avançado 30,5% e as concessões 31,8% em relação a 2018.

 

Concessões por modalidade de crédito

Cheque especial (Pessoa física)Não consignado (Pessoa física)Consignado (pessoa física)Capital de giro (Pessoa Jurídica)Conta garantida (Pessoa Jurídica)Cheque especial (Pessoa Jurídica)Microcrédito
Concessões (R$ milhões)
dez/1829 6869 75212 68518 14416 67916 8881 091
dez/1931 71711 25119 10928 46915 47119 2611 438
dez/2025 71311 24018 91731 2059 80013 2011 621
Variação nas concessões
dez/196,84%15,37%50,64%56,91%-7,24%14,05%31,81%
dez/20-18,93%-0,10%-1,00%9,61%-36,66%-31,46%12,73%

Saldo por linhas de crédito

Cheque especial (Pessoa física)Não consignado (Pessoa física)Consignado (pessoa física)Capital de giro (Pessoa Jurídica)Conta garantida (Pessoa Jurídica)Cheque especial (Pessoa Jurídica)Microcrédito
Saldo (R$ milhões)
dez/1821 982112 729336 545296 06429 7408 8385 123
dez/1924 151131 578383 879310 36532 8249 6266 685
dez/2017 959146 152439 039454 06721 5926 0547 789
Variação no saldo
dez/199,87%16,72%14,06%4,83%10,37%8,92%30,49%
dez/20-25,64%11,08%14,37%46,30%-34,22%-37,11%16,51%

Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que a desaceleração é fruto do momento de incerteza trazido pela pandemia, que incentiva os bancos a diminuírem as concessões. Ele afirma que mesmo no microcrédito as instituições tendem a “pisar no freio”, porém, pelo fato de os empréstimos nessa linha serem menores, é mais fácil que haja uma alta maior, afinal a base de valores é menor.

Aníbal Fernandes, principal executivo do Prospera, programa de microcrédito do Santander, concorda que a pandemia trouxe um cenário mais cauteloso para a concessão de crédito no Brasil. A saída para não “deixar os empreendedores na mão”, segundo o executivo, foi rever as condições de seus empréstimos.

“Durante a pandemia ficamos muito próximos dos nossos clientes. Prorrogamos contratos, demos outras concessões com valores que faziam sentido para eles naquele momento. Não deixamos o microempreendedor desassistido, fizemos isso tudo no intuito de perpetuar o negócio dele e ajudá-lo naquele momento”, explica.

 

Segundo o executivo, um dos principais focos do banco ao longo do ano passado foi oferecer suporte aos microempreendedores, com orientação financeira e o oferecimento de cursos.

A gente teve um volume, no geral, de 20% a mais de atendimentosTinha anos em que dobrávamos a quantidade, mas ano passado crescemos também”, afirma. Ele pondera também que o ticket-médio das operações caiu. “Não tanto, mas foi menor”, diz.

Para 2021, no entanto, o executivo está otimista. Ele afirma que o banco terá 200 novos agentes de microcrédito (profissionais voltados para atender os microempreendedores) no primeiro trimestre. “Se achássemos que essa linha não iria crescer, não faríamos isso”, diz.

Falta microcrédito no mercado

Apesar da alta do microcrédito em 2020, ainda existem muitos microempreendedores que não são atendidos. E a situação ainda pode piorar. Pelo menos é isso que sugere um estudo feito pelo professor Gonzalez em parceria com os pesquisadores Bruno Barreira e Arthur Ridolfo. A pesquisa mostrou que há uma “lacuna de crédito” para o pequeno empresário no Brasil.

Segundo o levantamento, existem 9,8 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), 6,6 milhões de microempresas (MEs) e 900 mil empresas de pequeno porte no Brasil (EPPs), que formam o universo das chamadas micro e pequenas empresas (MPEs). Ainda de acordo com a pesquisa, a maioria dessas companhias depende majoritariamente de suas próprias vendas para ter um capital de giro. Com a pandemia, e uma consequente queda nessas vendas, muitos desses empresários podem precisar de empréstimos.

O estudo estimou que o faturamento médio anual dessas empresas era de R$ 48,6 mil no caso dos MEIs, R$ 234 mil para as MEs e R$ 1,68 milhão para as EPPs, somando um total de R$ 3,52 trilhões anuais em um período de normalidade. Com a pandemia, no entanto, os estudiosos estimaram uma perda de 49% a 65% no faturamento dessas companhias, dependendo do setor, o que mostraria uma necessidade de uma demanda de R$ 472 bilhões de crédito.

Segundo Gonzalez, esse seria um bom momento para o governo intervir e incentivar o microcrédito por meio de parcerias de bancos estatais com instituições privadas. “Acho que nesse momento o governo precisa ter um papel ativo no crédito para os pequenos. Porque o setor privado e o setor financeiro tradicional pisa no freio”, afirma.

O microcrédito em geral deveria ter um papel anticíclico. Ou seja, acelerar no momento em que pessoas mais precisam, quando o crédito tradicional se enfraquece, mas nem sempre isso acontece. Então, o governo poderia agir por meio de bancos estatais, como a Caixa, o Banco do Nordeste, do BNDES em parceria com empresas de microcrédito e fintechs”, afirma.

Fonte: Valor Investe

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