Como Ser Criativo Sob Demanda

A criatividade é sorte que pode ser aprendida. Ela parece um milagre inexplicável quando chega, e talvez nunca sejamos capazes de isolar todas as variáveis que lhe dão origem. Porém, na minha experiência, podemos, sim, criar de forma confiável as condições para atraí-la.

Há 20 anos, estive envolvido em um projeto incrivelmente inspirador, em que trabalhei com alguns dos cidadãos mais pobres do Quênia em uma das áreas mais deterioradas de Nairóbi. Nossa meta era gerar estratégias de esforço pessoal para possibilitar a esse grupo ascender alguns níveis na escala econômica. Compreendi a audácia dessa iniciativa durante um voo de Bruxelas a Nairóbi. Eu havia adormecido brevemente, apenas o tempo suficiente para ter um pesadelo: sonhei que, de algum modo, eu havia me tornado presidente do Quênia, e isso me encheu de um desespero arrasador. Fiquei felicíssimo ao ser despertado bruscamente pelo aviso de que o avião se aproximava de uma zona de turbulência, mas o pesadelo enfatizou claramente o peso da tarefa que me aguardava. Eu deveria conduzir um encontro de dois dias com centenas de pessoas que poderiam ser fortemente impactadas pelo projeto. Nossa meta era clara, mas não tínhamos um plano concreto. Eu sabia que o trabalho valia a pena, mas nunca havia feito nada semelhante e me sentia inadequado para a tarefa. Torci e rezei para que surgissem ideias válidas – e elas surgiram. A viagem foi bem-sucedida, superando minha competência sob vários aspectos. Isso foi uma surpresa agradável, mas eu havia dado o melhor de mim para fazê-la acontecer.

Eis alguns caminhos que aprendi para ser criativo de forma mais previsível.

Defina o problema e então, distancie-se.

Como um grão de areia dentro de uma ostra, a irritação cognitiva estimula a criatividade. Quando nos damos um problema instigante, complexo e não resolvido – e nos asseguramos de articulá-lo de forma clara, concisa e vívida – nosso cérebro fica irritado. Durante meses, antes da minha viagem a Nairóbi, levei comigo um bloco de anotações onde eu havia escrito: “Como, sem nenhum recurso externo, criaremos 300 empregos de classe média para as pessoas do nosso grupo?”. O problema girava na minha cabeça. Uma forma de amplificar ainda mais a irritação cognitiva é esforçar-se em uma primeira – e insatisfatória – rodada de geração de soluções. Essa ação serve mais para dar a largada do que para resolver o problema. Depois, afaste-se um pouco e deixe o trabalho inconsciente começar, pois utiliza uma gama mais ampla de recursos mentais, experiências e ligações criativas.

Obedeça sua curiosidade.

Segundo Steve Jobs, “criatividade é apenas conectar as coisas” – e eu concordo. Se queremos ser mais criativos, precisamos ter mais coisas para conectar. A melhor forma de construir um banco de dados mental abundante para nos ajudar a resolver problemas futuros é honrar as curiosidades passageiras. Se algo nos atiça o cérebro, devemos investir algum tempo nisso. Devemos seguir caminhos que não tenham qualquer finalidade óbvia além de satisfazer um capricho. Pode ser um artigo ou uma palestra que nos intriga; um livro que notamos de forma inexplicável; alguém a quem somos apresentados. É tentador deixar essas oportunidades passarem, mas, com isso, colocamos nossa criatividade em perigo. Essas oportunidades tornam-se peças de Lego, os blocos de construção, os materiais de artesanato que dão origem a nossas obras-primas criativas. Minha experiência no Quênia foi produto de inúmeras conversas, livros, almoços e artigos que pareciam ter pouco valor imediato. Mesmo assim, investi neles – e fui recompensado.

Mantenha uma caixa de sapatos.

Em seguida, encontre um modo de colecionar e organizar suas experiências. Por exemplo, quando leio, uso fanaticamente o marca-texto e depois volto e releio as passagens destacadas. Em seguida, recorto e colo as melhores em um arquivo para poder encontrá-las facilmente mais tarde. Esse processo de três etapas (destacar, reler, organizar) aumenta a probabilidade de reter as informações e acaba permitindo a criação de conexões férteis entre todas as pequenas peças. Naquele mesmo voo transcontinental, enquanto sobrevoávamos o Egito, veio-me à consciência a lembrança de um livro sobre tomada de decisões em grupos grandes que eu havia lido cinco anos antes. Eu não pensava no livro desde então, mas havia destacado, relido e categorizado passagens dele à época, e assim abri meu notebook e revi ideias-chave que serviriam de base para a pauta utilizada por nosso grupo para avançar o trabalho nos dias seguintes.

Faça coisas que você não tem interesse.

No início da minha carreira, Will Marre, presidente fundador da empresa de treinamento Stephen Covey, aconselhou-me a assinar algumas publicações de uma lista feita por ele, e acrescentou: “E toda vez que ler uma delas, não deixe de ler ao menos um artigo que não seja do seu interesse”. Fui recompensado inúmeras vezes por seguir o conselho. Muitas coisas que vão parar em minha caixa de sapatos vêm de workshops em congressos, artigos ou videos online que começaram como tarefas e terminaram com insights. Meu trabalho no Quênia, por exemplo, foi fortemente influenciado por um artigo da Christian Science Monitor que eu havia me forçado a ler dez anos antes. Às vezes, consideramos algo “enfadonho” simplesmente por estar fora da caixa onde estamos no momento.

Predisponha-se a conversas desconfortáveis.

Outro excelente estímulo criativo é nos engajarmos regularmente em conversas com pessoas de quem normalmente nos esquivaríamos. Três das conversas mais inesperadamente proveitosas que tive na vida foram com um taxista racista em Londres, um traficante de drogas sentado ao meu lado em um voo e um defensor de visões políticas extremas em Porto Rico. Não mudei de lado em resultado dessas conversas, mas compreendi perspectivas importantes de vida que jamais viverei. Essa disciplina ajudou-me a encontrar a flexibilidade psicológica que me foi necessária no Quênia. Vez ou outra, algum integrante do nosso grupo participava da corrupção que é tão comum no dia a dia daquele país, e eu precisava encontrar um equilíbrio entre a empatia e a responsabilidade de prestar contas. Anos de prática em compreender a realidade alheia ajudaram-me a abordar a situação com determinação em vez de repulsa.

Pare e trabalhe quando a criatividade surgir.

Sou capaz de perceber quando algo está se formando dentro de mim e sei que, quando menos esperar, terei uma onda de clareza. A disciplina final em abrir caminho para a criatividade é honrar esses momentos escrevendo. Se interrompo o que estiver em andamento para transcrever e organizar meu fluxo de pensamento, acelero o desenvolvimento de ideias. Se ignoro esses momentos – ou se tento adiá-los – vejo que é impossível recriá-los, pois perco a clareza nascente e retardo o processo. A poucas horas de Nairóbi, tive uma onda de ideias. Eu estava exausto e sonolento, mas reconheci corretamente o primeiro sintoma da inspiração. Antes mesmo da aterrissagem, eu já tinha um discurso de abertura veemente, que escrevi como se alguém o tivesse ditado. Ao mesmo tempo, criei o processo de dois dias que ajudou o grupo a se aglutinar em torno de uma estratégia detalhada e esperançosa.

Nos dois anos seguintes, ajudei meus 300 cúmplices a estabelecer uma cooperativa de propriedade de trabalhadores. A partir de seus esforços parcos, porém coletivos, amealharam capital suficiente para criar um empreendimento que empregou muitos deles. Essas experiências contribuíram para a fundação de uma organização sem fins lucrativos que, até agora, já ajudou dezenas de milhões de pessoas de todo o mundo a melhorar suas circunstâncias econômicas.

Talvez a criatividade sempre envolva uma parcela de mistério. Porém, todos podemos praticar disciplinas que abram caminho para que ela chegue de forma oportuna.

Fonte: Harvard Business Review

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