Como Ser Criativo Sob Demanda

Os psicólogos descobriram que, quando temos menos recursos para trabalhar, começamos a enxergar o mundo de forma diferente. Como as restrições podem forçar o seu cérebro a ser mais criativo.

Durante décadas, a opinião dominante entre psicólogos era que as restrições limitavam a criatividade. Qualquer pessoa que trabalhe, nem que seja por um curto período de tempo, lidando com uma burocracia restritiva, um chefe microgerente ou um professor cujo método foca em uma prova específica pode entender o apelo deste argumento. Porém, há um outro lado da história.

Patricia Stokes é psicóloga da Universidade Columbia e especializa na ciência da criatividade. Em um experimento que ela realizou em 1993, roedores foram forçados a apertar uma barra só com a pata direita. O resultado foi que eles não só aprenderam a adaptar-se a essa restrição, mas também descobriram mais maneiras de apertar a barra do que os roedores de outro grupo que podia usar as patas livremente. Este tipo de criatividade começou a ser chamada de “criatividade com minúscula“: é uma forma de criatividade que não tem o foco de produzir obras criativas mas resolver problemas práticos por meio de usos e aplicações novos de recursos. É esta forma de criatividade que tende a chamar menos atenção.

Costumamos pensar que a criatividade é algo artístico, ou a característica que produz obras-mestre. Na verdade, é uma parte importante de simplesmente fazer as coisas do dia a dia. É o que permite que um programador complete a sua primeira linha de código original, que um gerente de produtos identifique um novo mercado para um produto existente e que um professor de ensino fundamental descubra uma maneira divertida de ensinar subtração. Nas mais variadas situações, as restrições parecem melhorar o nosso desempenho.

O teste do plástico-bolha

Em um estudo de 2015, Ravi Mehta, da Universidade de Illinois, e Meng Zhu, da Universidade Johns Hopkins, observaram como a ação de pensar em escassez ou abundância influenciava a criatividade com que as pessoas utilizam os recursos. Os pesquisadores pensavam que, destacando a escassez dos recursos, eles poderiam reduzir a tendência natural das pessoas a usar os recursos disponíveis de formas convencionais.

Para testar as suas predições, os pesquisadores realizaram cinco experimentos. Em um dos experimentos, eles dividiram os 60 estudantes de graduação que participavam dele em dois grupos. Mehta e Zhu pediram que o primeiro grupo escrevesse uma breve redação sobre como é crescer com recursos escassos, enquanto o segundo grupo escreveu sobre como é crescer com recursos abundantes. A seguir, os pesquisadores apresentaram aos dois grupos um problema real que a universidade enfrentava.

Após uma recente mudança do laboratório de informática, a universidade tinha 250 folhas de plástico-bolha e queria achar uma maneira de usá-las. Os pesquisadores providenciaram uma amostra do material e pediram que os estudantes elaborassem um plano para utilizar o plástico-bolha. Posteriormente, os estudantes responderam a um questionário que media as diferentes maneiras como eles abordaram o desafio.

Os pesquisadores contrataram 20 pessoas para avaliar o caráter inovador das sugestões. Os avaliadores, que não sabiam se os participantes eram do grupo de escassez ou abundância, pontuaram as propostas. Surpreendentemente, o grupo de escassez foi mais bem avaliado em termos da criatividade das suas ideias para a reutilização do plástico-bolha.

Como as restrições moldam a nossa percepção do mundo

A pergunta que surgiu foi “porquê?” — o que faz com que a escassez de recursos nos leve a enxergá-los de maneira mais expansiva? Mehta e Zhu concluíram que, quando há abundância, não há incentivo para usar o que está disponível de formas inovadoras.

Em outras palavras, os ambientes em que nos encontramos ou nos impulsam a ter uma visão diferente, ou não. Isto implica que a criatividade é, em muitos aspectos, situacional, e não uma faculdade inata ou um traço da personalidade. Quando enfrentamos escassez, damo-nos a liberdade de usar recursos de maneiras menos convencionais porque somos obrigados a isso. A situação requer uma licença mental que, caso contrário, permaneceria inativada.

Vista desta forma, a abundância de recursos, na verdade, pode ser contraproducente. Os nossos problemas, desafios e oportunidades podem tornar-se mais gerenciáveis quando há restrições que nos direcionam a utilizar ao máximo o que temos. A pesquisa sugere que, sem restrições, tendemos simplesmente a recuperar exemplos de uso da nossa memória — geralmente, usamos uma cadeira para sentar, e é assim que concebemos o uso de uma cadeira, por exemplo.

Essa fixação funcional pode ser um verdadeiro bloqueio cognitivo que faz com que vejamos apenas a superfície dos recursos ou o seu uso convencional. Seguimos o caminho de menor resistência, o que nos permite conservar energia mental por direcionar-nos instintivamente às maneiras comuns de pensar.

Quando há restrições, o processo de pensamento é bastante diferente. Dedicamos a nossa energia mental a ações mais criativas. Se você encomendar um projeto oferecendo um orçamento normal, o encarregado pode voltar com algumas boas ideias. Porém, se você encomendar um projeto dentro de um orçamento limitado, é provável que o resultado seja muito melhor. De fato, é isso que uma equipe de pesquisadores descobriu quando estudou a maneira como as pessoas projetam novos produtos, preparam refeições e consertam brinquedos quebrados: um orçamento limitado causou um aumento significativo no caráter inovador das soluções para o desafio e levou a melhores resultados.

Portanto, mesmo que você não pense no seu processo orçamentário trimestral como um contexto para aplicar a sua criatividade, pode ser o cenário onde surgem inovações inesperadas.

Este artigo foi adaptado de “Stretch: Unlock the Power of Less—and Achieve More Than You Ever Imagined” por Scott Sonenshein. Todos os direitos reservados © 2017 por Scott Sonenshein. Reimpresso por cortesia da HarperBusiness, um selo da HarperCollins Publishers.

Fonte: Content Loop BR

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