Como Redirecionar A Carreira Depois De Uma Demissão

Na economia atual, as demissões acontecem todos os dias, desde o fechamento do negócio por falência, até a perda de empregos por desligamentos, inovações tecnológicas, fusões, e outros tipos de reestruturações. Centenas de milhares de organizações de vários tamanhos – desde pequenas empresas até grandes organizações – pedem recuperação judicial todos os anos. De acordo com um levantamento feito pelo Bureau of Labor Statistics (órgão similar ao Ministério do Trabalho, no Brasil), entre 2015 e 2017, três milhões de trabalhadores foram desligados das empresas onde trabalhavam há pelo menos três anos. Para ter sucesso na carreira, os profissionais precisam aprender como voltar à ativa depois de derrotas avassaladoras.

Nossa pesquisa sobre trajetória de carreira e os estilos de lamentações dos ex-colaboradores do Lehman Brothers mostram que as pessoas que perdem o emprego tendem a seguir um destes dois caminhos ao voltar para o mercado de trabalho. A direção que escolhem depende, em grande parte, daquilo que querem resgatar da experiência obtida no emprego anterior, e que tem um grande significado na gama de oportunidades para seguir em frente.

Os Recriadores e os Propositores

Chamamos esses dois grupos de “Recriadores” e “Propositores.” Os Recriadores procuram funções parecidas em organizações e ramos de negócios similares. Para os banqueiros do Lehman, era importante conseguir um emprego em outras instituições financeiras, normalmente, na mesma função. Ao contrário dos Recriadores, os Propositores abandonam a carreira que tinham nas empresas e procuram oportunidades para empreender, tanto em finanças como em outras áreas. Para os banqueiros do Lehman, essa atitude tinha a ver com começar vários tipos de novos negócios, como por exemplo, empresas de turismo, educação e e-commerce.

O que contribuiu, de fato, para essas escolhas tão diferentes? Ao contrário do que dizem as pesquisas, não foi por conta do acesso diferenciado a recursos como conhecimento, rede de contatos ou capital financeiro. O fator diferencial foi o tipo de vivência que escolheram para trazer consigo – vinda do emprego anterior – depois da falência. De fato, mais do que concentrar no que perderam, Recriadores e Propositores focaram no que poderiam resgatar das experiências obtidas anteriormente.

Os Recriadores haviam criado vínculos – parecidos com os de família – com seus colegas de empresa, procurando recriar essa “mágica” em organizações semelhantes ao fazer praticamente as mesmas coisas, com as mesmas – ou que pareciam ser as mesmas – pessoas com quem trabalharam no Lehman. Usando as palavras de um dos participantes de nossa pesquisa, “…para falar a verdade, poder continuar a trabalhar com meus colegas foi a razão mais convincente [para eu continuar na área] – fazendo a mesma coisa com as mesmas pessoas.”

Por um outro lado, os Propositores decidiram seguir a cultura do empreendedorismo da empresa usando a competência adquirida. As relações entre eles se mantiveram profissionais e cordiais, embora não dessem prioridade à sua manutenção após a falência do banco. Essas pessoas procuraram oportunidades para aplicar suas habilidades de novas e diferentes maneiras. Ao explicar por que decidiu se tornar empreendedor, um outro bancário do Lehman comentou que “minhas competências estão acima do que é necessário para trabalhar num banco, mas tenho como usá-las a meu favor numa startup. Dessa forma, quando as utilizo, consigo acelerar seu crescimento ainda mais.”

Esses métodos não são restritos aos colaboradores do Lehman Brothers. Como exemplo, vamos citar o artigo não publicado das pesquisadoras da Yale, Winnie Jiang e Amy Wrzesniewski, onde elas afirmam que, quando se trata de uma função onde os trabalhos estão ficando cada vez mais escassos, jornalistas optaram pela “preservação” (similar à recriação) ou uma “reinvenção” (similar à proposição) à medida que avançaram  nas suas  carreiras.

Também entrevistamos executivos de outras áreas de atuação, que também foram desligados de suas empresas e que conseguiram voltar à ativa, com sucesso. Dessas conversas, surgiram alguns padrões parecidos. “Joe”, por exemplo, atualmente Chefe de Relações com Investidores numa empresa de biotecnologia, adotou a Recriação. Ele descreve as pessoas com quem trabalhou como o fator de maior valor nas escolhas de carreira, desejando recriar a cultura “estilo família” que tinha vivido na empresa anterior. Ao contrário de “Joe”, “Stan” se tornou um Propositor: ele já foi auditor financeiro, mas atualmente tem sua própria empresa de consultoria. Ao explicar por que, mencionou a importância das competências adquiridas quando era auditor e como poderia usá-las para criar oportunidades para si próprio.

Como ampliar os horizontes

Qual dos dois caminhos é melhor seguir – o da recreação ou o da proposição? Obviamente, é preciso levar em consideração a quantidade de vagas disponíveis compatíveis com seu cargo anterior. Especialmente, por conta de demissões e falências, é possível que haja milhares de pessoas com as mesmas qualificações competindo pelas poucas vagas. Por fim, os propositores podem ter mais oportunidades ao trocar de emprego. Dito isso, nosso estudo sugere que qualquer uma das direções escolhidas pode gerar bons resultados; o segredo está em dedicar tempo para descobrir o que deve ser levado em conta do emprego anterior e como usá-lo para conseguir o emprego seguinte.

Os executivos que entrevistamos repetiram os mesmos assuntos do nosso estudo e deram conselhos muito parecidos de como voltar ao mercado de trabalho depois de uma demissão: pare, pense, escolha qual caminho trilhar e pare de se preocupar muito.

Pense no que você está sentindo, no seu próprio valor e no que você ganhou e aprendeu – em termos de experiência – no seu último emprego. Segundo Joe e Stan, respectivamente, “leva um certo tempo para absorver o fato de que perdemos o emprego e é difícil compreender muitas coisas quando isso acontece.” “Pense no que realmente é importante para você…reserve um tempo para lamentar o fato, mas não se deixe paralisar.” É importante notar que há muitas coisas que você não perde quando não tem mais emprego.”

Acredite naquilo a que você dá valor e pare de se preocupar com o ocorrido. Com esse fim, Joe acrescentou, “É possível achar algumas das coisas que você teve anteriormente, em outro lugar. Embora possam não ser exatamente iguais, com o tempo serão uma nova rotina. Você pode se apegar ao que você considera importante, mas também deve perceber que aquela empresa continua funcionando sem você, pois você não está mais lá.” Da mesma forma, Stan afirmou, “Não se afogue nas suas mágoas; olhe para o futuro. Sempre há novas oportunidades.”

Em suma, a perda de um emprego pode ser geradora de novas oportunidades quando sentida da forma apropriada. De acordo com o nosso estudo, a maneira como uma pessoa volta à ativa depende muito de como essa pessoa reagiu à perda do emprego. É durante o processo de aceitação da perda que as coisas acontecem: desde a análise do que foi deixado para trás até a análise do que foi proveitoso e que poderá ser reutilizado numa nova atividade.

Fonte: Harvard Business Review

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