Há cinco anos, em outubro de 2008, desencadeava-se a crise financeira global que mudou o mundo tanto quanto a crise de 1929. Esta crise bancária de grandes proporções ainda não foi superada pelos países ricos, e continua rebaixando a taxa de crescimento dos países de renda média como o Brasil.

Os EUA e o Japão estão lentamente retomando o desenvolvimento; a zona do euro permanece estagnada, mas isto não se deve à crise, e sim ao grande equívoco que é o euro.

Terá sido essa crise suficientemente poderosa para modificar o capitalismo? Sim. A crise determinou o fim dos 30 Anos Neoliberais do Capitalismo (1989-2008).

Poucos continuam hoje a afirmar que o mercado é capaz de regular toda a economia com eficiência, e, portanto, que é recomendável tudo desregular, liberalizar, privatizar.

As teses liberais foram novamente desmentidas, e o liberalismo econômico foi mais uma vez desmoralizado, em conjunto com a teoria econômica neoclássica que lhe servia de legitimação “científica”.

No auge da crise ficou claro para todos que o Estado é a instituição fundamental de cada nação. Que nos momentos de crise, é com ele que a nação conta. Que a regulamentação e intervenção moderadas que pratica são fundamentais para o bom funcionamento da economia.

Sem alarde, sem discursos ideológicos, o que vemos é o abandono do liberalismo econômico e o fortalecimento do desenvolvimentismo. Em lugar do agressivo laissez faire neoliberal, os Estados voltam a se preocupar em defender suas empresas e promover o desenvolvimento.

Os governos dos dois países onde nasceu o neoliberalismo –EUA e Reino Unido– decidiram promover sua reindustrialização, algo impensável há dez anos, quando se afirmava que o mercado se encarregava de alocar os fatores de produção de forma sempre ótima.

A Rodada Doha foi abandonada. As medidas de proteção comercial se multiplicam em todos os países.

“The Economist” lamentou recentemente que o mundo voltava a “criar cercas”. O sistema financeiro voltou a ser regulado, ainda que de maneira insuficiente e que o problema expresso na frase “too big to fail” não tenha sido resolvido.

Tudo isto significa que o liberalismo econômico voltou a dar lugar ao desenvolvimentismo como forma de organizar o capitalismo.

Esta é uma mudança para melhor. O capitalismo deixa de ser tão instável e ineficiente como foi nos anos neoliberais. Mas nada garante que tenhamos voltado ao desenvolvimentismo social-democrático dos 30 Anos Dourados do Capitalismo.

O neoliberalismo logrou flexibilizar os contratos de trabalho, para tornar os países ricos mais competitivos em relação aos asiáticos, mas não logrou destruir o Estado do Bem-Estar Social instituído no pós-guerra.

Vivemos, atualmente, um período de transição. O destino do capitalismo está em suspenso. A Europa, onde floresceu a forma mais avançada de capitalismo -o capitalismo desenvolvimentista e social –está paralisada pelo euro.

Faltam, neste momento, ideias novas para que este impasse, e, mais amplamente, para que o impasse criado pela crise global sejam superados.

Luiz Carlos Bresser-PereiraLuiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, onde ensina economia, teoria política e teoria social. É presidente do Centro de Economia Política e editor da “Revista de Economia Política” desde 2001.Fonte: Folha de São Paulo
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