Artistas frustrados do facebook

Nesta semana, o polêmico criador do também polêmico site WikiLeaks, Julian Assange, escreveu no The New York Times um texto um tanto quanto perturbador, característico de suas invenções. Segundo ele, o negócio do Google e do Facebook é “a destruição industrial da privacidade”. Uma verdade explícita e só menos aberta do que a escancarada vontade das próprias pessoas em mostrar as suas vidas nas redes sociais, seja por puro despreparo para utilização das redes ou para preenchimento de um ego que se fere a cada dia com a decepção de não estar nas páginas das revistas.
Assange escreve com a prioridade de quem quebrou sigilos históricos de superpotências em todo o mundo e alerta para o que parece ser mera bondade das empresas. Segundo ele, o modelo de negócios das redes sociais é perfeito. Quem não gosta de comprar algo de graça? Pois é justamente essa promessa que as empresas fazem. Alguém paga para ter uma conta no Facebook ou Gmail? Assim, essas ferramentas acabaram se tornando uma grande arma de vigilância, seja para empresas ou governos. Contudo, o que Assange não abordou em seu artigo é que as pessoas fazem porque simplesmente gostam. Elas, inclusive, sentem a necessidade de contar sobre as suas vidas nas redes. São os artistas frustrados das redes socais, que se apresentam de graça em troca de míseras curtidas e comentários.
Vivemos não só em um estado de vigilância, mas em uma sociedade de vigilância que cresce em monitoramento da vida das pessoas, inclusive, pela vontade das próprias pessoas. O desejo de ser vigiado parece ser algo cultural, instintivo, algo quase que existencial. Para Assange, a vigilância totalitária não está apenas em nossos governos, mas está incorporada na nossa economia, em nossos usos mundanos da tecnologia e em nossas interações cotidianas. De fato, qual a real necessidade de viajar de lua mel e postar a foto do quarto ou da paisagem do lugar? Deteriora-se um momento íntimo, outrora tratado até mesmo com certa timidez entre as pessoas, em prol do preenchimento de um ego que se arrastou vazio por anos. As pessoas têm feito de suas páginas nas redes sociais verdadeiras colunas sociais, onde mostram que, sim, estão muito bem, obrigado, e que o sucesso é latente à sua existência. Caras e Contigo agora são o “feed de notícias” de cada usuário, a diferença é que fazem isso de graça, expõem as suas vidas e preenchem um ego tão efêmero e vazio quanto as atualizações de uma página de Facebook.
Vieira Junior, jornalista, pós-graduando em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (IBE Conveniada FGV).
Fonte: Panorama de Negócios

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