Por Ilan Chamovitz, professor-tutor no FGV Online

Algumas vezes já escutei ou recebi mensagens de alunos dizendo: “OK, eu sei que preciso entender os conceitos, mas eu não gosto de estudar”. Entendo que nem sempre o assunto é agradável ou está no rol de nossas prioridades, especialmente durante o período planejado para o estudo.

Assim, o estudante se prepara para passar, e não para aproveitar as oportunidades que aparecem ou que podem aparecer no futuro. Em muitos casos, podem até encontrar, posteriormente, cenários e situações que demandem conceitos adquiridos, à época, pela motivação – “estudar para passar”. Em outros casos, esquecerão os conceitos no dia seguinte à prova ou à entrega da atividade e poderão estar diante da necessidade de rever aqueles conceitos. Trata-se de uma estratégia compreensível, especialmente se houver tempo para uma nova revisão, uma nova consulta. Porém, se este tempo não estiver disponível, se for exigida uma resposta ou ação imediata, sem possibilidade de consultas – seja porque está em uma reunião com superiores que aguardam a sua decisão, seja porque deve antecipar-se à concorrência –, ele terá de agir, mesmo sem o domínio dos conceitos. Ou seja: vai correr riscos.

No meu caso, lembro que, na escola, em aulas de física, química e matemática, eu ficava me perguntando a razão de precisar estudar aquelas matérias, pois, na época, desejava cursar Administração, ser administrador. Hoje, vejo a importância da Qualidade na Administração, sei que, na área da Saúde, a simples fabricação de um instrumento que terá contato com a pele possivelmente dependerá de certificação da ANVISA e envolverá elementos químicos e procedimentos relacionados à física e à matemática. Em resumo: entendo bem melhor que a boa prática está muito relacionada com a teoria, e que, se a teoria for conhecida, poderemos estudar as boas-práticas que aplicam a teoria e, também, as práticas que falharam, para que não sejam repetidas em cenários semelhantes.

Um exemplo simples: um pintor de carros que recebeu um fusca com para-lamas de uma cor diferente do restante do carro e foi solicitado a repintar o automóvel, decidiu pintar o carro inteiro na cor principal para, em seguida, repintar os para-lamas. Sei que algumas decisões dependem da situação, do tipo de equipamentos, do tipo de carro, etc. Mas, em outro momento, eu vi outro pintor trabalhando diferente: ele pintou primeiro os para-lamas, depois cobriu os para-lamas e pintou o restante do automóvel. Economizou tinta e tempo. Pensei comigo: este pintor utilizou bem a noção de Conjuntos. Até conversei com ele, perguntei se ele estudou matemática, Conjuntos. Ele me disse: “Ilan, sinceramente, eu não fui um bom aluno na escola”. Mas, pelo visto, de certa forma, ele dominava o assunto e usou conceitos que “deveria” ter aprendido.

Conseguir pontos para passar na disciplina pode até ser uma estratégia. Mas, não deve ser o objetivo final. O objetivo final é estar melhor preparado para a ação, para tomar decisões, para sugerir mudanças, para aceitar mudanças sugeridas. Estudantes e futuros gestores públicos, futuros executivos, gerentes, técnicos e especialistas devem considerar esta sugestão: dê mais valor à teoria e a utilize-a, sempre que possível, na prática.

Ilan Chamovitz (D.Sc.) é professor, tutor do FGV Online e analista de sistemas do Ministério da Saúde (Datasus). Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Centro de Pesquisa em Serviço, na Manchester Business School (MBS), da Inglaterra.

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